O HORÓSCOPO DE ALMANAQUE

 

Renata Telles - UFSC

 

 

Almanaque – cadernos de literatura ensaio circulou entre os anos de 1976 e 1982, publicada pela então renomada editora Brasiliense e organizada pelos professores Bento Prado Jr. e Walnice Nogueira Galvão. A leitura e a indexação[1] dos 14 números da revista revelaram uma maioria absoluta de ensaios, nos quais a presença da literatura é esmagadora. Um conjunto que se agrupa sob as palavras-chave literatura, crítica e ideologia e que cita, recorrentemente, Adorno e Antonio Candido, em uma miscelânea de ensaios, ficções, poemas, jogos, manifestos e horóscopo.

O aparentemente múltiplo da miscelânea dirigiu o meu olhar para os textos que fugiam à classificação, discursos irônicos e satíricos que, em forma de ensaios, manifestos, cartas fictícias, pastiches de resenhas, testes, quebravam a previsibilidade da escrita acadêmica. A aparente diversidade desses textos produzia, por sua vez, um único enunciado que deslegitimava um opositor e estabelecia relações com densos ensaios críticos, que legitimavam um exemplo. Concentrados nos sete primeiros números da revista, esses fragmentos explicitavam uma pedagogia da guerra, na qual o adversário não falava com a própria voz, era caricaturado, em que o manifesto calava a polêmica e definia um modelo e um anti-modelo nas páginas da revista. Esse pequeno conjunto de textos compunha uma narrativa das aventuras e desventuras da crítica literária brasileira nos finais dos anos 70, do estruturalismo e da crítica sociológica, da indústria cultural e do lugar da literatura.

Para aprender com Almanaque – cadernos de literatura e ensaio era preciso mais do que encontrar uma narrativa organizada com título, enredo, protagonistas e antagonistas, e analisar suas partes. Era necessário reconhecer nessa narrativa um testamento da crítica literária brasileira e assumir a responsabilidade de herdeiro, ensaiando um diálogo com uma geração que se colocava ao mesmo tempo antes de mim e diante de mim. Para entrar criticamente na narrativa dos grandes, Roberto Schwarz, Lígia Chiappini Moraes Leite, Walnice Nogueira Galvão, Gilberto Vasconcelos e José Miguel Wisnick, tive que esquecer a sua presença na cena contemporânea e o peso de sua trajetória, e me deter unicamente no legado deixado nas páginas da revista.

Traçados todos esses limites e tomadas essas precauções, me aproximo pela extremidade, pelo título estampado na capa: Almanaque – cadernos de literatura e ensaio. Uma escolha deliberada que põe em movimento todos os sentidos e histórias do nome e determina uma direção para a narrativa que nomeia. O almanaque controla o tempo e a dívida na antigüidade, vulgariza o conhecimento racional e científico da enciclopédia moderna, ganha a popularidade com conselhos úteis, informações e entretenimento, alcança a circulação das revistas de variedades da indústria cultural. Os cadernos de literatura, por sua vez, apontam para o território das belas letras, para a separação entre a alta cultura e a indústria cultural. O ensaio convoca a escrita híbrida, entre a arte e a ciência, que rejeita tanto a classificação inequívoca e conclusiva do saber científico, como a facilitação dos almanaques.

A convivência da matéria perecível da indústria cultural com o valor imperecível da alta cultura, a junção da leitura facilitada e divertida com a escrita reflexiva e crítica, a escolha de um oxímoro como título, mantêm presente a tensão entre os opostos contidos no mesmo nome e revela uma percepção aguda das transformações do momento, que afetam diretamente o lugar e a função do crítico: a de legislar valores e separar os almanaques dos cadernos de literatura. O efeito de indeterminação e indefinição causado pela aproximação do erudito e do popular na crítica literária do final dos anos 70 provoca uma reação que coloca em movimento valores, estratégias de ataque e defesa, de exclusão e inclusão, e que define posições diante do fato anunciado pelo título.

A narrativa dos cadernos é inaugurada por um ensaio que define a diferença entre os almanaques e a literatura. Ao analisar Helena, Roberto Schwarz[2] distingue a “grande literatura” do folhetim de Machado de Assis, estabelecendo como critério de valor a denúncia, na forma literária, da contradição entre ideologia dominante e realidade social. A verdade do critério de valor definido nesse ensaio inicial é reafirmada pela apresentação de seu oposto. Sob o disfarce de cartas[3] assinadas pelos leitores Rieman Jakobson e W. Benjamim, o almanaque guarda para os leitores das suas charadas o prêmio da revelação: o outro de Almanaque. Representado como a inversão dos valores defendidos, o antagonista é caracterizado como impostura e erro, como um estruturalista de discurso obscuro e jargão incompreensível, que despreza o leitor e ignora a realidade social.

O devedor assim inscrito no almanaque, aquele que não paga tributo e não reconhece o valor estabelecido, movimenta a narrativa mais uma vez e uma receita de sucesso fácil, intitulada “19 princípios para a crítica literária”[4], precisa a caracterização do impostor local. A crítica brasileira adversária, como o folhetim de Machado de Assis desvalorizado no ensaio inaugural, é acusada de importar acriticamente teorias estrangeiras distanciando-se da realidade, e, como o confuso estruturalista das cartas, é denunciado pelo jargão artificial e descompromissado com o social. Uma caracterização ampla o bastante para conter todas as variantes teóricas que questionam a exclusividade do critério social – Chomsky e Propp, lingüística moderna, new criticism, fenomenologia, teoria francesa, estruturalismo – e reduzida o bastante para conter as diferenças – Afrânio Coutinho, Haroldo de Campos, Luís Costa Lima, Silviano Santiago, Afonso Romano de Santana – no mesmo rótulo.

O próximo capítulo dessa narrativa se organiza em torno de três textos distintos – uma resenha de uma suposta tese de mestrado sobre os três primeiros números da revista[5], um jogo de vocabulário[6] e um ensaio de autocrítica[7] – que afirmam ser o mesmo. O aparente absurdo de tal afirmação se desfaz diante da ridicularização do estruturalismo, da semiologia e do trânsito Europa-Brasil, operada pelo pastiche de resenha; do lugar de perdedor reservado para os que apostam na disseminação do discurso, pelo jogo que se diz racionalista; e do menosprezo pelos que se prendem aos “limites do texto”, explicitado pelo ensaio. Assim, mais uma vez, o adversário é representado como desligado da realidade, da racionalidade e da humanidade, e, portanto, irreal, irracional e artificial.

A insistência na exclusão do estruturalismo, sinônimo de teoria acrítica e impostura, a repetição que quer se convencer de que o que se deseja morto está de fato morto, termina por dar visibilidade ao adversário nas páginas de Almanaque - cadernos de literatura e ensaio e por revelar o grande incômodo causado pelo avanço dos que questionam o seu critério de valor, a certeza do compromisso social, que distingue os cadernos de literatura dos almanaques.

No interior dessa univocidade surge uma voz que retoma a tensão do título para problematizar a rígida distinção entre os seus dois pólos. Mantendo a validade do critério para denunciar a falsa crítica literária, a autocrítica proposta por Lígia Chiappini e Flávio Aguiar reivindica a flexibilização na definição do objeto de estudo, defendendo a necessidade de uma nova postura diante do surgimento das massas, da imprensa independente e do fim do apoio estatal. A rigidez da distinção entre arte crítica e ideologia, que separa a literatura e o almanaque, é responsabilizada agora pelo elitismo que exclui o gosto da maioria. Mantendo distância do adversário, a auto-intitulada “crítica militante” propõe que se olhe para outros discurso, adaptando-se ao novo cenário detectado precisamente, sem, no entanto, abrir mão da função de “falar pelas massas”.

Ao trazer para o centro da narrativa a música popular brasileira, as posições em torno do argumento teórico que sustenta a barreira entre os almanaques e os cadernos de literatura, indústria cultural e arte, se radicalizam. A importação acrítica de teorias, característica imputada repetidamente ao adversário, é usada por José Miguel Wisnick[8] para mostrar a inadequação da teoria de Adorno às condições locais. Para além da tímida proposta de flexibilização e longe da resistência à ambivalência dos contrários, o professor de literatura se apóia nas palavras de um músico de sucesso e da antropologia, para afirmar a possibilidade da arte na indústria cultural e a impraticável separação dos almanaques e dos cadernos de literatura na realidade brasileira.

A rebeldia em relação ao critério de valor, defendido e demonstrado na narrativa da revista, não fica sem resposta. Rejeitando qualquer possibilidade de conciliação, Roberto Schwarz[9] ergue categoricamente a barreira entre arte e indústria cultural, reafirmando que a função do crítico literário é a de fazer a distinção entre almanaque e literatura, revelando a falsa aparência democrática do nivelamento, na escrita complexa do ensaio que se distancia da facilitação dos almanaques.

Almanaque – cadernos de literatura e ensaio contém todos os sentidos, os que ele controla e os que não controla: o rumo e o ritmo da história no calendário, a lista dos devedores no livro de contas; a mercadoria perecível popularizada pelos meios de comunicação com o barateamento do papel e a imprensa moderna; o entretenimento e o lazer, as informações úteis e variadas; a vulgarização da enciclopédia, o saber imperecível que expulsa a ambigüidade; o lugar da elite que escreve a leitura facilitada e pedagógica para as massas. Almanaque contém os cadernos de literatura e ensaio: as belas letras e a capacidade de discerni-las; o erudito, a arte; o oposto do almanaque; a escrita híbrida, entre arte e ciência; a argumentação que rechaça o exaustivo e a certeza; o oposto da enciclopédia.

A revista dá visibilidade ao complementar e ao antagônico, guarda o almanaque, a enciclopédia, a literatura e o ensaio. Assim, as respostas para o crescimento dos almanaques, que desestabiliza o privilégio dos cadernos de literatura, são articuladas nos ensaios, que ocupam a maior parte da revista. O gênero híbrido, mescla de linguagens e argumentos que foge à classificação inequívoca da enciclopédia, escrita complexa que trabalha as contradições sem aspirar ao caráter conclusivo, ensaia a fresta por onde passa a discussão entre os almanaques e os cadernos de literatura. O ensaio trabalha o limite e a fluidez do almanaque e da literatura, na resistência, na adaptação e na transformação.

As tendências reativas, as diferentes leituras do momento e de Adorno, presentes na primeira metade de Almanaque, parecem provocar alterações na continuação da revista. A partir do número oito, a nova capa abandona o barato e sóbrio papel pardo para funcionar como ilustração e anúncio do conteúdo específico de cada número, que passa a ser temático, em uma profusão de cores. O cérebro esmagado pelo parafuso que dominava a capa assinada por Cláudio Tozzi, a denúncia da agressão do orgânico pela maquinização, da invasão do pensamento pela produção mecanizada, sofre uma diminuição e um deslocamento, permanecendo como um pequeno selo no canto inferior direito.

A curta narrativa, que permitiu a leitura da defesa de uma posição na crítica literária brasileira pelo ataque ao adversário e apontou para uma aguda percepção do presente através da centralidade do debate sobre arte e indústria cultural, se encerra bruscamente. A estratégia de atrair o olhar do público, como qualquer revista da indústria cultural, deixando de lado o visual discreto de revista acadêmica, interrompe o discurso agônico e manifestário que vinha ridicularizando generalizadamente a crítica brasileira adversária, não dá continuidade ao debate interno sobre a relação dos almanaques e dos cadernos de literatura e ensaio, e marca, ainda, o fim da colaboração, até então constante, de Roberto Schwarz, a voz da resistência nesse debate.

As mudanças coincidem com os primeiros sinais do enfraquecimento da ditadura militar a partir da anistia, em 1979. A segunda fase da revista coincide também com o período, 1979/81, em que Silviano Santiago[10] localiza a passagem de uma crítica literária para uma crítica cultural a partir da percepção e do questionamento das transformações que marcam, no terreno da cultura, a transição para o final de século na América Latina, marcado, por diferenças internas na esquerda, pela emergência da antropologia e da cultura na área literária e pela derrubada da barreira entre o erudito e o popular.            Se as questões levantadas por Silviano Santiago são centrais nas diferenças internas da “ala mais crítica” que percorrem os sete primeiros números da revista, elas parecem, num olhar de relance, assumir uma outra forma, um discurso não agônico, que faz tímidas tentativas em novas direções.

O título do epílogo da revista, “Modos menores de ficção”, estampado na capa rosa choque do último número, contraria a definição da “grande literatura” elaborada, por Roberto Schwarz, no número inaugural e evoca, ao mesmo tempo, a distinção presente em seu ensaio, “Só as asas do favor me protegem”, e em seu objeto de estudo, Helena, de Machado de Assis. A revista inclui aí ensaios sobre folhetins, telenovela, fotonovela, imprensa feminina, almanaques. Se voltamos à pista de Silviano Santiago[11], que recupera a identificação entre a cultura de massa e a mulher apontada por Huyssen[12], vemos que os modos classificados como menores por Almanaque são os que agradam tradicionalmente ao público feminino, leitoras emocionais e passivas, desde a velha senhora ávida por folhetins, “enfadonhos e maçantes”, e a literatura “apropriada para mulheres”, na narrativa de Machado, à “leitura insípida”, ao “moralismo familiar e cristão” e à “intriga ultra-romântica”, que Schwarz define como o oposto da “grande literatura”.

A abertura para “outros discursos” e o interesse pelo “gosto da maioria” parecem manter, na classificação do “menor”, o padrão do “grande”. Ao mesmo tempo em que Marlyse Meyer[13] proclama gostar de folhetins e telenovelas, questionando a visão que o “crítico esclarecido e de bom gosto” tem da indústria cultural como pura alienação, ela parece destoar, como Wisnick, já que os ensaios seguintes sobre a fotonovela e a telenovela sugerem o contrário e reforçam a distinção entre arte e ideologia.

Através do estudo da posição dos astros, ou dos críticos literários, em um determinado momento e lugar, o final da década de 70 em São Paulo, poderíamos antever temas centrais do debate atual: Como lidar com produtos não hierarquizados, como justapor o antes excludente? Como ser crítico no pluralismo, singular no global? Como escrever em não? Cadernos de literatura e ensaio = almanaques?

É dessa forma que, em um último lance típico de almanaques, a atualidade das questões que agitam as páginas de Almanaque – cadernos de literatura e ensaio pode ser lida, também, como um horóscopo.



[1] A indexação de Almanaque – cadernos de literatura e ensaio se encontra no banco de dados do projeto “Poéticas contemporâneas: histórias e caminhos”, orientado pela profa. Dra. Maria Lucia de Barros Camargo e desenvolvido no Núcleo de Estudos Literários e Culturais, da UFSC. Para cada artigo é preenchida uma ficha com informações sobre autores colaboradores, autores citados, palavras-chave, tipo de texto, área de conhecimento, resumo, o que permite pesquisas relacionais e percentuais.

[2] R. SCHWARZ. Só as asas do favor me protegem. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 1. S.P.:Brasiliense, 1976

[3] Cartas dos leitores. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 1. S.P.:Brasiliense, 1976

[4] R. SCHWARZ. 19 princípios para a crítica literária. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 2. S.P.: Brasiliense, 1976

[5] Glória precoce: Almanaque objeto de tese. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 6. S.P.: Brasiliense, 1978

[6] “O jogo de almaqneu”. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 3. S.P.: Brasiliense, 1977

[7] F. AGUIAR. e Lígia CHIAPPINI M. LEITE. A crítica da ‘razão’ elitista. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 3. S.P.: Brasiliense, 1977.

[8] J.M. WISNICK. Oculto e óbvio. (entrevista com Caetano Veloso) e “Onde não há pecado nem perdão” In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 6. S.P.: Brasiliense, 1978

[9] R. SCHWARZ. Nota sobre vanguarda e conformismo. In. Almanaque – cadernos de literatura e ensaio 7. S.P.: Brasiliense, 1978

[10] S. SANTIAGO. Democratização no Brasil 1979/1981 (cultura versus arte). In. ANTELO, R. et al (orgs.).Declínio da arte/ascensão da cultura. Florianópolis: Abralic/Letras contemporâneas, 1998

[11] Idem. p. 20

[12] A. HUYSSEN. A cultura de massa enquanto mulher: o ‘outro’ do modernismo. In: Memórias do Modernismo. R.J.: EdUFRJ, 1997

[13] M. MEYER. Folhetim para Almanaque ou Rocambole, a Ilíada de Realejo. In. Almanaque - cadernos de literatura e ensaio 14. S.P.: Brasiliense, 1982.